Algumas pessoas divulgaram no Twitter que hoje seria o Dia Internacional do Homem. Achei a data sem pé nem cabeça e resolvi consultar a Wikipédia. Descobri que a data não é celebrada hoje, mas no dia 19 de novembro de cada ano.
Parabéns pra nós homens, então, né? Claro que não! Como disse no Twitter:
Maiorias políticas não precisam de “dias”. Dia do homem, dia do branco, dia do orgulho hetero comemoram a conquista de qual direito?
Eu fico impressionado com este tipo de argumento que meu amigo Idelber Avelar muito bem denominou de falsas simetrias. Geralmente quem se vale dele o faz com um certo ar de indignação na defesa irrestrita do direito constitucional à igualdade. Exemplos clássicos:
- “Se o sujeito pode usar uma camisa na qual declara ser ‘100% negro, com orgulho’, eu também posso usar uma camisa declarando ser ‘100% branco, com orgulho’.”
- “Se há uma parada do orgulho gay, é necessário criarmos agora uma parada do orgulho hetero.”
- “A lei Maria da Penha é inconstitucional porque protege a mulher da violência doméstica, mas não protege o homem.”
O velho conceito matemático de igualdade jurídica, anterior, pois, às lições de Aristóteles de que se deve “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de suas desigualdades”.
Nossa sociedade não é politicamente homogênea, então esta lógica de igualdade com a qual alguns pretendem trabalhar não funciona. Aliás, se nossa sociedade fosse homogênea, nem precisaríamos de um conceito jurídico de igualdade.
Somos uma sociedade desigual, marcada não só por diferenças de classe social (ricos X pobres), mas de etnia (brancos X negros), de gênero (homens X mulheres), de orientação sexual (heteros X homos), de nacionalidade (nacional X estrangeiro) e de centenas de outras. São estas diferenças biológicas, sociais, econômicas, culturais e, na maioria das vezes, a mistura de todas elas que refletem em um tipo de diferença especialmente relevante para o Direito: diferença de expressão política na sociedade.
Assim, toda igualdade jurídica tem que ser pensada a partir de uma perspectiva histórica que reconheça as diferenças políticas existentes entre diversos grupos sociais. Há quem historicamente foi dominado e há quem tenha dominado. Querer dar a estes grupos tratamento idêntico, desprezando a história de opressão de um e a história de luta e resistência de outro é uma aberração jurídica.
Quando um negro usa a camisa “100% negro, com orgulho”, uma leitura histórica da frase traduz: “faço parte de uma etnia que foi oprimida ao longo da história, mas me orgulho dela e luto para que ela tenha os mesmos direitos das demais”. Quando um branco usa a camisa “100% branco, com orgulho” uma leitura histórica da frase traduz: “sou racista”.
Quando os homossexuais fazem sua “parada do orgulho gay”, eles manifestam-se por respeito à sua orientação sexual. Quando os heterossexuais fazem uma “parada do orgulho hetero” eles manifestam sua intolerância por orientações sexuais diversas.
Quando uma mulher apanha de seu marido, ela apanha de séculos de submissão da mulher ao homem. Quando um marido apanha de sua mulher, ele é simplesmente um frouxo. Ambos são vítimas de lesão corporal, mas é mais que razoável que exista uma lei prevendo penas maiores para quem se aproveita de uma cultura histórica de submissão. A lei, aliás, visa justamente coibir esta cultura da submissão de um gênero ao outro.
Pensar igualdade jurídica fora de uma perspectiva histórica resultará inequivocamente em argumentos legitimadores do status quo e da manutenção da submissão de um grupo social a outro.
Como não raras vezes se ouve de piadistas-chavões nos dias 8 de março: há o Dia Internacional da Mulher porque os outros 364 dias do ano são dos homens. Eles falam achando graça, mas é uma triste constatação. E é justamente por isso que é preciso que haja um Dia Internacional das Mulheres e porque não há qualquer necessidade para a existência de um Dia Internacional dos Homens.
15 Jul 2009 at 15:54
Muito bom!
Parabéns!
15 Jul 2009 at 16:06
“Quando um marido apanha de sua mulher, ele é simplesmente um frouxo”.
Tirando isso, concordo com tudo.
15 Jul 2009 at 16:07
Você é demais!
Seus artigos são concisos e densos.
O admiro por ser um homem capaz de dicernir entre as balelas hipócritas do dia-a-dia e a verdade baseada na história.
Forte Abraço!
15 Jul 2009 at 16:23
Muito bom o texto, o dose é que a maior parte dessas pessoas que adoram falar nessa “igualdade” bizarra, correm para defender as especificidades quando se trata de equalizar a distribuição de renda. É a igualdade da desigualdade. Um subterfúgio para manter tudo como está. Eita conservadorismo véio e sem fronteira…
15 Jul 2009 at 16:24
Excelente texto Túlio. As pessoas até hoje estão presas em uma idéia de igualdade que é incompatível com o mundo real e talvez incompatível consigo mesma, uma vez que busca fixar padrões formais que não levam em conta aspectos históricos nem sociais.
Mas, acho que posso colaborar um pouquinho causando polêmica…
Olha como o nosso discurso as vezes nos trai.
Você disse:
“Quando um marido apanha de sua mulher, ele é simplesmente um frouxo.”
Consegue perceber que mesmo defendendo um discurso contrário as discriminações, nessa sua frase você é sexista?
O que essa sua frase deixa a entender, é que o homem não pode apanhar de uma mulher, isso é uma ofensa a sua masculinidade. Ele é frouxo, ou seja, não é forte e viril o suficiente para conter sua esposa, logo menos homem.
15 Jul 2009 at 16:38
Eu sabia que vocês iam gostar do “ele é simplesmente um frouxo”
15 Jul 2009 at 16:53
Só uma coisa a dizer: meus parabéns!
15 Jul 2009 at 16:54
Não conhecia as lições do Aristóteles. Onde posso encontrar essa citação?
Lembrou muito aquela do Marx, que nunca consigo decorar.
Anyway, ótimo texto.
Abraço
15 Jul 2009 at 17:25
Está no Livro 5 da Ética a Nicómaco.
15 Jul 2009 at 17:43
“ele é simplesmente um frouxo”.
Deu preguiça?
De resto, o texto é ótimo.
Abraço
15 Jul 2009 at 17:46
Excelente texto, Túlio! Aliás, nem sabia que existia dia internacional do homem.
15 Jul 2009 at 17:50
eu amei o post, mas passei pelos comentários só pra dizer que tou rindo até agora com a piadinha do frouxo, hahahahah.
excelente.
15 Jul 2009 at 18:00
você está enganado em “A lei Maria da Penha é inconstitucional porque protege a mulher da violência doméstica, mas não protege o homem.”, já existe jurisprudência da Lei Maria da Penha beneficiando (com justiça) homens…ou seja, é constitucional a defesa do homem agredido em ambiente familiar.
15 Jul 2009 at 18:23
Não, não estou. Quem está enganado é o juiz que decidiu assim.
O maior rigor da lei Maria da Penha visa proteger quem foi historicamente oprimido.
Este tipo de decisão parte de uma interpretação a-histórica da lei.
15 Jul 2009 at 19:18
Discordo de tudo. Acho extremamente válido que exista um dia internacional do homem. Acho que devemos comemorar e refletir sobre todos os homens maravilhosos que temos na nossa sociedade. Comemorar homens q são bons pais, bons profissionais, e bons cidadãos. Estabelecer um dia pra isso estimula a sociedade a reconhecer todos aqueles indíviduos que exercem sua masculinidade de uma forma que contribui para a sociedade. Infelizmente, são minoria, mas quem sabe com o hábito de trazer isso a tona (com atividades em escolas, rádio, tv, palestras, como é a proposta da unesco) as próximas gerações de homens aprendam a sê-lo de uma maneira valiosa e indispensável.
15 Jul 2009 at 21:41
Um artigo bastante conciso e didático sobre igualdade jurídica e historicidade. Apesar de ser uma verdade um tanto óbvia, tanto pra quem estuda Ciência Política ou Jurídica, como pra quem é leigo e tem um parafuso a mais, não é difícil se defrontar com esse tipo de falácia em discussões sobre igualdade, mesmo na academia.
Neste caso em particular, não acho que seja por ignorância. Tou mais entre acreditar que seja uma “ação tradicional” do estilo weberiano, um bloqueio mental mesmo; ou a mais pura e simples leviandade reacionária.
E você, prof., que acha?
Abraços!
15 Jul 2009 at 22:02
excelente post!
tentei outro dia explicar exatamente isto a um amigo, mas não fui tão bem sucedida, sua síntese foi exclente.
a frase que resume tudo é:
Pensar igualdade jurídica fora de uma perspectiva histórica resultará inequivocamente em argumentos legitimadores do status quo e da manutenção da submissão de um grupo social a outro.
15 Jul 2009 at 23:01
Falando em igualdade..
Não conheço termos jurídicos, não estudo Direito, mal sei o que é status quo(vou pesqisar assim que acabar de escrever,desculpem a ignorancia).
Porém acredito que a igualdade(política ou não) consiste em respeitar a diferença, reconhecer a diversidade como um fator moldador de uma sociedade dinâmica, mesclada, heterogênea.
A igualdade não é tratar a todos como seres iguais. Porque isso é impossível até biologicamente. Mas sim tratar a diferença de cada um com o mesmo respeito, com a mesma importâcia e sem distinção.
16 Jul 2009 at 13:11
A-histórica que seja, a interpretação que amplia a proteção da Lei de Violência doméstica serve, no mínimo, para acabar com a incoerência de se proteger somente a mulher numa lei que, em seu artigo 1º, diz regulamentar o art. 226, p.8º da Constituição, que diz “o Estado assegurará a assistência à família na pessoa DE CADA UM DOS QUE A INTEGRAM…”.
Frouxo? Casa com uma Rebeca Gusmão da vida e depois repete isso! hehe
16 Jul 2009 at 13:14
Só não concordo quando entra os conceitos de raça. Determinar um raça também é ser racista. Quando alguém usa uma camisa 100% negro não está defendendo o “lado negro”, o “lado oprimido”, mas está sendo racista também e de certo modo apoiando o conceito de raças numa tentativa bem ignorante de se defender.
O certo seria se declarar humano. Numa boa, não vejo diferença entre alguém que se diz branco e alguém que se diz negro. Aliás, condeno qualquer tipo de movimento de ambos os lados e acho bem ridículo o governo querer “classificar” quantos existem de um e de outro. Tanto que muitos dos que se dizem negros se julgam como pardos e aí é que a bagunça fica maior ainda.
Talvez eu esteja sendo muito utópico, mas em pleno século 21 esse conceito de raças já devia ter ido embora e qualquer um que tente classificar deveria ser tido como um racista (pois é exatamente isso que a palavra indica).
16 Jul 2009 at 14:03
“Quando um marido apanha de sua mulher, ele é simplesmente um frouxo.”
Uai, não entendi! O termo “frouxo” subentende que ele deveria reagir, já que ele não tem essa capacidade. Se for assim, ficou contraditório o que vc disse.
16 Jul 2009 at 14:05
E concordo com o que o Lucas disse. Um negro, ou quem se acha um, pode ter orgulho de alguns genes negros que ele tenha, mas um branco não pode se orgulhar de jeito nenhum? Palhaçada isso.
Talvez eu esteja sendo muito utópico, mas em pleno século 21 esse conceito de raças já devia ter ido embora e qualquer um que tente classificar deveria ser tido como um racista (pois é exatamente isso que a palavra indica).[2]
16 Jul 2009 at 14:40
Recentemente, tenho pensado bastante sobre tudo isso que está neste post.
Quando se fala em um dia internacional do homem, realmente, a grande pergunta é: o que o homem conseguiu conquistar? Por mais que se fale em uma dominação sexista histórica, em que o papel masculino sempre esteve predominante em relação aos demais (deixo o gênero em aberto, pois não acredito em uma total dicotomia do gênero), quem definiu o conceito de masculino? E o que o homem conquistou? A mulher conquistou o direito de votar, de ir às ruas para trabalhar, de decidir quando ter filho ou não e até de usar calças. E o homem? Até hoje, está-se preso a um conceito que não aborda todas as possibilidades de uma sociedade para o homem transitar.
Exemplifico pela bem colocada frase: “Quando um marido apanha de sua mulher, ele é simplesmente um frouxo.” Por mais contraditória que ela pode ser, é a mais pura verdade. Homem não PODE apanhar de mulher. Hoje, ele não pode mesmo.
Quando falamos em feminismo, justamente pela carga histórica, discutimos a igualdade entre gêneros. Quando falamos em machismo, é a supremacia do homem perante a mulher. Quando o homem lutará para que essa imagem seja desfeita? O homem nunca conseguiu formar uma classe que lute pelos seus direitos plenos, que é defender o gênero sem precisar ser preconceituoso.
Um homem que cuida da casa, por exemplo, sofre o mesmo preconceito daquele que apanha da mulher. Homem que cuida de sua aparência, até há pouco tempo – e ainda há resquícios hoje -, tinha sua orientação sexual questionada, como se apenas os homossexuais pudessem cuidar de sua aparência.
Na sociedade machista hoje estruturada, não é só os outros gêneros que são afetados, mas também para a liberdade do próprio homem.
Não sei. Às vezes eu acho necessário que se questione mesmo esse papel do homem, mas ao mesmo tempo, justamente por causa da carga histórica, creio serem desnecessários estes questionamentos.
O que você acha?
16 Jul 2009 at 14:54
Túlio, você admite a pertinência dos comentários das leitores e dos leitores, mas não dá nenhum complemento em relação à “piadinha do frouxo”. Não vejo piada alguma.
E digo mais: em determinados debates, a fruição humorística põe abaixo uma sustentação que, como disseram, é bastante densa e coesa.
Se a intenção era o riso, como piadista, você é um ótimo advogado.
16 Jul 2009 at 15:59
Ótimo texto, apesar de não concordar 100%! Acabei de conhecer seu blog através de uma indicação da Denise Arcoverde (do blog Síndrome de Estocolmo) pelo Twitter.
Só uma correção de um neurótico: hétero tem acento, por ser uma palavra proparoxítona.
16 Jul 2009 at 16:40
ótimo! excelente! disse tudo.
16 Jul 2009 at 17:34
justiça e igualdade são mitos que servem para equilibrar a socidade, e olha que nem sempre dá certo
17 Jul 2009 at 2:50
Nem por isso podemos desprezar quando algo se vale da suposta condição histórica e de submissão para ultrapassar limites jurídicos e morais. Também é importante analisar este fato.
Concordei com seu texto. Realmente é ruim quando um grupo dominante usa estas “falsas simetrias” para usar seu poder.
Mas é curioso esta relação de datas comemorativas. Afinal, a maioria costuma celebrar sua maioria, só que nem sempre são oficializadas.
Até que pontos comemora-se as conquistas da minorias? Afinal, a conquista dos direitos das mulheres é um marco. É importantíssimo. Mas tantas outras minorias mais minoritárias quando não são nem reconhecidas. Que não tem seus direitos assegurados.
Mesmo em matemática, há o estudo da simetrica, mas onde ela está? Não necessariamente a simetria se apresenta neste argumento, então não nada contraditória.
Talvez seja importante respeitar o direito de comemorar as duas datas da “falsa simetria”. Não com sarcasmo e instrumento da submissão. Mas com tolerância e respeito.
Pois a identidade cultural de um povo sempre se sobrepõe sobre uma minoria. E é direito destas pessoas comemorarem sua cultura. Claro, isto não implica que poderão desrespeitar a cultura alheia. Que poderão esquecer da diversidade. Tudo depende da forma como é tratado.
Acabei me alongando muito texto.
Abraço,
Búfalo
http://naoserouser.wordpress.com/
18 Jul 2009 at 17:04
Conclusão:
Viva as cotas para não-brancos.
27 Jul 2009 at 15:11
Tulio,
Olha a perula que o Danilo Gentilli escreveu no site dele. http://bit.ly/1rVJW
O humor no Brasil tem dificuldade de sair do lugar comum. Exemplo disso é o Zorra Total, que só sabe fazer piada com pobre, gay e mulher burra, tiram negro pq os politicamente corretos enchem o saco.
[]’s
Gustavo Amigo
05 Ago 2009 at 11:58
Gostei!
Ótima argumentação.
Ressalva apenas para a parte do “frouxo”.
05 Ago 2009 at 11:58
Só acho que a desproporcionalidade com a qual são tratados certos temas é demais, um exemplo tosco. O Rappa tem uma música que diz:
Branco, se você soubesse o valor que o preto tem, tu tomanha banho de piche e virava preto também.
Vai um branco cantar…
Negro, se você soubesse o valor que o branco tem, tu tomanha banho de cal e virava branco também.
…e mesmo sem nenhuma mensagem racista implicita ou explicita nesse trecho de música, vai ver se você não está na cadeia no dia seguinte.
Concordo com cada palavra que você disse em seu texto, mas que muitas vezes as coisas são tratadas de forma desproporcional, isso é verdade.
05 Ago 2009 at 13:34
Eu não vejo muita lógica em alguém ser orgulhar de algo que não escolheu ser, como no caso da nacionalidade ou etnia. As pessoas deveriam ser orgulhar daquilo que elas podem escolher ser, como ser bondoso, ser justo, ser ético. São coisas que qualquer um pode ser por livre arbítrio, independente de sua etnia ou nacionalidade. Alguém usar uma camiseta 100% honesto para mim faria muito mais sentido. Isso sim seria motivo de orgulho!
05 Ago 2009 at 14:39
Muito bom
O problema é que quem deveria ler e entender esse tipo de post, não o faz.
Abraço
06 Ago 2009 at 4:48
[...] tem esse outro texto no blog do Túlio sobre igualdade social e as “falsas simetrias”, que resume a questão do humor [...]